100 anos de imigração japonesa no Brasil: o que temos a comemorar?
Por Maria do Carmo Monteiro Kobayashi, professora da Faculdade de Ciências da Unesp.


 

As nossas experiências de vida muitas vezes nos levam a estudar fatos e fenômenos que nos favorecem a compreensão de culturas e de povos diferentes. Foi o convívio na colônia nipo-brasileira e a constituição de uma família híbrida que me mostrou a necessidade de conhecer melhor quem são esses homens e mulheres que deixaram o seu país, do outro lado do mundo, em busca de riqueza para um breve retorno.

A vinda dos japoneses para o Brasil teve início em 1895, com o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação que preparou inicialmente a entrada dos japoneses no Brasil. Esse Tratado teve um peso muito grande para os dois países até a II Guerra Mundial, momento em que as relações Nipo-brasileiras ficaram estremecidas. O ano de 1908 é um marco na imigração, foi quando aqui chegam os primeiros filhos da terra do sol nascente, marcados por diferenças culturais e físicas que evidenciavam a sua procedência.

Para os países envolvidos os interesses na imigração se completavam. Para o Japão, as mudanças decorrentes do processo de modernização, a partir 1868, com Era Meiji, que pela falta de empregos, de espaço para dar condições a uma população que aumentava em decorrência da elevação da qualidade de vida, foi a razão para o incentivo ao fluxo imigratório inicialmente para o sudeste da Ásia e Oceania e, posteriormente, para a América. Desde o início, as empresas de imigração japonesa cuidaram da propaganda, do envio e da instalação das famílias que para cá vieram.

Para o Brasil, as vantagens não eram menores, pois a partir da libertação dos escravos e a conseqüente falta de mão-de-obra para a lavoura do café em São Paulo, apesar da imigração já ter sido iniciada por outros estrangeiros, coube aos japoneses o trabalho nas fazendas. A imigração japonesa ficou conhecida como “tutelada” por ser acompanhada pelo governo japonês e teve características diferentes das demais que ocorreram no Brasil. Esse fluxo transoceânico teve características marcantes desde o início até a II Guerra Mundial.

O primeiro período da imigração, segundo alguns autores, ocorreu entre 1908 e 1925, fase experimental, que como o próprio nome diz foi uma etapa inicial na qual a infra-estrutura na maior parte das fazendas de café estava muito aquém do mínimo para uma vida digna. A partir de 1924/25 até 1941, quando ocorrem as grandes entradas dos imigrantes, a estrutura de recepção e encaminhamento possibilitou uma melhor inserção entre os parentes, vizinhos e patrícios que aqui se encontravam.

É preciso salientar que esses imigrantes vinham em grupos de familiares, pois o contrato de trabalho tinha como clausula que deveriam vir famílias de no mínimo 5 pessoas sendo que 3 deveriam ser de mãos para  o trabalho na lavoura. O fluxo imigratório continua até a década de 70 do século passado, após o que há uma inversão, há o retorno à terra dos ancestrais, pois nesse período a história se inverte e ir para o Japão é ganhar dinheiro para retornar ao Brasil.

No ano do Centenário da Imigração a união entre brasileiros, descendentes nipo-brasileiros e japoneses mostra que os anos vividos no período da II Guerra foram dissolvidos e nesse ano a comunidade nipo-brasileira se une para mostrar aquilo de mais bonito que ficou desse encontro: a amizade e o respeito de dois povos, de duas culturas que se unem e que como sempre digo não sei se sou mais japonesa ou se meu marido é mais brasileiro. Assim, hoje temos um Brasil mais oriental e um oriental mais abrasileirado.