A vantagem com relação ao primeiro, é que o cimento é biologicamente compatível com os tecidos dentários e com o segundo, é o preço: o MTA chega a custar, em valores absolutos, 7 mil % a mais. A pesquisa é fruto de um projeto de mestrado da cirurgiã-dentista Ana Paula Camolese Fornetti, desenvolvido pela disciplina de Odontopediatria do Departamento de Odontopediatria, Ortodontia e Saúde Coletiva da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB/USP).
“Nós temos uma linha de pesquisa no Programa de Pós-Graduação da FOB que é a biocompatibilidade de materiais. Então, baseado na composição do MTA, que é semelhante à do cimento Portland, elaboramos um projeto para a sua aplicação em clínica, nas pulpotomias de dentes decíduos (de leite)”, explica o professor Ruy Cesar Camargo Abdo, orientador do projeto. Quanto à utilização do cimento “in natura”, Abdo esclarece: “Queríamos testá-lo na forma como ele é; obviamente com a devida adequação para uso em clínica”. Mesmo sendo um produto de fácil acesso, o professor acha precoce avaliar qual será o impacto nos custos finais do tratamento. “Primeiro, porque não está sendo utilizado em consultório e ainda estamos em pesquisas. No entanto, quando for liberado para o uso, e comercializado, não acredito que seja a redução seja significativa”, prevê.
Foram avaliados 68 dentes molares inferiores de 52 crianças entre 5 e 9 anos de idade. Para a autora, o cimento “além de ser um produto mais barato, traz a vantagem da biocompatibilidade”, ou seja, o organismo aceita naturalmente o material. O que não acontece com o formocresol de Bukcley, substância introduzida no início do século passado que, com algumas modificações da fórmula original, é muito utilizada até hoje. Fornetti lembra que pesquisadores do mundo inteiro buscam alternativas capazes de unir ganhos terapêuticos e econômicos para esse tipo de tratamento e aponta que o cimento Portland pode ser um substituto seguro.
Nos estudos comparativos com o formocresol, diluído a 1/5, a performance do cimento “in natura” foi eficiente, “proporcionando respostas satisfatórias do complexo dentino-pulpar, após serem empregados como agentes capeadores em pulpotomias de dentes de leite”. A pesquisa foi iniciada em 2005 e as etapas clínicas e avaliações em 2006. Além da aplicação na polpa dentária de dentes de leite, o uso do cimento está sendo estudado para procedimentos de retro-obturação, reparo de perfuração de raiz, entre outros tratamentos endodônticos em dentes permanentes.
E quanto ao MTA, o cimento comum traz os mesmos resultados? “Sim”, garante o professor Ruy César Carmargo Abdo. “Sob o ponto de vista terapêutico, os resultados são semelhantes”. A única diferença entre ambos é que no MTA é acrescido o óxido de bismuto, uma substância radiopaca que permite a visibilidade radiográfica, “mas que não apresenta nenhuma função terapêutica”. Abdo lembra que o cimento de construção é constituído basicamente de calcário (vide tabela abaixo), não traz toxidade neste tipo de utilização e é bactericida por natureza, “uma vez que possui um PH altamente alcalino”, explica. O professor lembra que na pesquisa o produto utilizado foi esterilizado, mas ressalva que “são necessários ainda novos estudos para melhores conclusões”.
A mesma cautela tem a pesquisadora Ana Paula Camolese Fornetti que recomenda, antes de assegurar a indicação definitiva do cimento, tanto em pulpotomias de dentes de leite, permanentes ou em outros campos da odontologia, que novas pesquisas em humanos sejam conduzidas. “Principalmente as avaliações em longo prazo e os estudos microscópicos, que é o que vamos dar continuidade a partir de agora”, revela. A utilização do cimento Portland é bastante comum em experiências com animais, “mas são poucos os estudos conclusivos e relatados em humanos”. O projeto da FOB/USP foi aprovado pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa do Ministério da Saúde (Conep).
Conheça a composição química do cimento Portland, MTA e Formocresol:
| CIMENTO PORTLAND |
| Componentes |
Fórmula Química Usual |
Fórmula de Símbolo Único |
| Silicato tricálcio |
3CaO.SiO2 |
Cão |
| Silicato dicálcio |
2CaO.SiO2 |
SiO2 |
| Aluminato tricálcio |
3CaO.Al2O3 |
Al2O3 |
| Aluiminoferrato tetracálcio |
4CaO.Al2O3.Fe2O3 |
Fe2O3 |
| Sulfato de cálcio hidratado |
CaO.SO3.2H2O |
SO3, H2O |
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| AGREGADO TRIÓXIDO MINERAL (MTA) |
| Componentes |
Fórmula Química Usual |
Fórmula de Símbolo Único |
| Silicato tricálcio |
3CaO.SiO2 |
Cão |
| Silicato dicálcio |
2CaO.SiO2 |
SiO2 |
| Aluminato tricálcio |
3CaO.Al2O3 |
Al2O3 |
| Aluiminoferrato tetracálcio |
4CaO.Al2O3.Fe2O3 |
Fe2O3 |
| Sulfato de cálcio hidratado |
CaO.SO3.2H2O |
SO3, H2O |
| Òxido de bismuto |
Bi2O3 |
Bi2O3 |
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| FORMOCRESOL |
| Formaldeído |
| Orto-Cresol |
| Glicerina |
| Álcool etílico 96º |
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