Guias de campo: autores invisíveis

 
 

Os guias de campo, na maioria das vezes invisíveis nas citações bibliográficas, são o tema de uma polêmica tese de doutorado defendida na Universidade Federal do Pará (UFPA). A pessoa que guiou o pesquisador pelas áreas de campo, repassando informações valiosas para o sucesso de um estudo, tem direito de ser creditado na pesquisa científica como um dos autores? Taí uma boa discussão ética.       

Os anônimos da Ciência

O reconhecimento do conhecimento das populações tradicionais pelo meio científico é ainda um tabu. Um pesquisador vai a campo, realiza seu trabalho e publica sua pesquisa. A pessoa que guiou o pesquisador pela área, conhecida como "guia de campo" pelos pesquisadores, tem direito de ser creditado na pesquisa científica como um dos autores?  A polêmica questão fez parte de uma série de perguntas feitas a diversos cientistas por Graça Ferraz, Chefe da Coordenação de Planejamento e Acompanhamento (CPA) do Museu Goeldi e pesquisadora de Ciências Sociais.

A questão acerca da valorização do conhecimento tradicional dos ribeirinhos foi o tema principal de sua tese de  doutorado intitulada "Cientistas, visitantes e guias nativos na construção das representações de ciência e paisagem na Floresta Nacional de Caxiuanã", defendida em fevereiro no Programa de Pós-Gaduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará (UFPA) e Museu Goeldi.

Graça Ferraz concentrou seu trabalho nas comunidades que vivem no  entorno da Estação Científica Ferreira Penna (ECFPn), bem como nos  pesquisadores que utilizam a estrutura da Estação, localizada na  Floresta Nacional de Caxiuanã. "Trabalho com as comunidades que vivem no entorno da ECFPn desde  1996 e sempre me chamou a atenção o modo como elas tratam o  conhecimento. Diferente de nós, pesquisadores, os conhecimentos dos  ribeirinhos são algo comum e natural para eles, adquirido e  repassado de pai para filho", explica Graça Ferraz".


Reconhecimento formal

Para desenvolver seu trabalho, a pesquisadora realizou uma série de entrevistas com todos os guias de campo da Estação, moradores das comunidades próximas e pesquisadores que trabalham na ECFPn, alguns  até de outros países, obtendo relatos diversos acerca de conhecimento científico e tradicional. Segundo Ferraz, "o objetivo  principal do meu trabalho era mostrar o quão importante é o conhecimento tradicional para as pesquisas científicas, dar visibilidade para essas pessoas. Alguns pesquisadores reconheceram,  por exemplo, que se não tivessem a ajuda de um guia de campo, suas  pesquisas poderiam levar meses ou anos a mais para serem concluídas. 

O ribeirinho conhece o melhor local para coletar um espécime ou instalar um equipamento, por exemplo". Ao serem perguntados se  dividiriam a co-autoria de um trabalho científico com os guias de campo alguns pesquisadores ficaram perplexos", relata a pesquisadora. "O guia de campo não é visto como participante ativo na produção da ciência. Apesar de reconhecido por todos, o saber tradicional é colocado numa outra instância menos qualificada", explica Ferraz. Mas ressalta que não reconhecer o papel dos guias nativos não se constitui discriminação por parte dos pesquisadores.
"Não se trata de algo consciente. O fato é que nós, pesquisadores, passamos por uma série de etapas, como provas, defesas de trabalhos, artigos publicados, etc. para oficializar o conhecimento que adquirimos. Acabamos, portanto, por valorizar o conhecimento que atravessa essas etapas e esquecemos que existem outras formas de conhecimento, como o adquirido pelos guias de campo".

Um debate ético

 "A aquisição do conhecimento tradicional é histórica e processual, por isso, este não pode ser inventariado, mas a experiência em que se baseia, fundamental para produzir a ciência do lugar e no lugar, não pode ser adquirida em curto prazo", afirma Graça Ferraz. É essa perspectiva, que a pesquisadora, acredita, "contribui para o  entendimento da imprescindível colaboração dos nativos".

Através de seu trabalho, Ferraz concluiu que os moradores do entorno da Estação, incluídos os guias de campo, esperavam mais do conhecimento produzido na ECFPn, no sentido de mudar algo em suas vidas. Concluiu a pesquisadora também, que os pesquisadores vêem o guia de campo apenas como um instrumento para alcançar seus objetivos de forma rápida e segura.

Para ela, "O ideal seria o Museu  Goeldi aproveitar o diferencial da ECFPn, uma base científica em plena floresta, em favor de suas pesquisas e reconhecer a importância do conhecimento adquirido pelos guias de campo, que disponibilizam tudo o que sabem a determinado pesquisador. Ele deve ter o seu trabalho reconhecido ao final de uma pesquisa, pois é um importante componente para o avanço do conhecimento." Como  solucionar a questão do reconhecimento do papel dos guias nativos? "Isso ainda fica em aberto," admite Graça Ferraz em sua tese de Doutorado.

Por Tiago Araújo, Agência Museu Goeldi.


 

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